Quando eu era pequena, minha mãe costumava compartilhar as histórias que a avó Marta lhe contava sobre a Fazenda da Barra, em Cajuru. Eram relatos que atravessavam gerações, carregados de mistério e sofrimento, como se a própria terra ainda guardasse ecos dos tempos passados.
Ela começava sempre da mesma forma, com aquele olhar distante e voz baixa, quase em um sussurro: "Sua avó dizia que, nas noites da Fazenda da Barra, o silêncio era tão pesado que chegava a assustar. Mas, de repente, esse silêncio era quebrado por sons estranhos. Era como se correntes fossem arrastadas pelo chão de terra batida, cortando o ar de forma inquietante."
Minha mãe continuava: "Os antigos donos da fazenda eram senhores de escravos. Ali, muitos sofreram nas mãos de capatazes cruéis, que agiam sob as ordens dos senhores. Os castigos eram terríveis. Alguns morriam no tronco, açoitados até não restar forças, e suas mortes serviam como exemplo para impedir fugas. Outros sucumbiam à fome, já que os donos da fazenda não permitiam que os escravos se alimentassem direito."
Era uma narrativa difícil de ouvir, mas minha mãe contava que vovó Marta acreditava que os espíritos daqueles que morreram na fazenda ainda vagavam por ali. "Entre os anos de 1830 e 1850," ela dizia, "mais de cinquenta escravos morreram de forma violenta. Eles eram tão magros que parecia que seus corpos já haviam desistido antes mesmo de suas almas. Os senhores daquela fazenda eram cruéis além do que se pode imaginar."
Minha mãe suspirava, como quem carregava o peso dessas histórias. "Depois que tantos morreram, coisas estranhas começaram a acontecer na Fazenda da Barra. Quem passava por lá à noite dizia ouvir correntes, como se ainda fossem arrastadas. Outras vezes, sentia-se um vento gelado, mesmo nas noites mais quentes, e, ao longe, vozes pareciam cantar melodias africanas, cheias de dor e saudade."
O momento mais impressionante do relato, no entanto, era sobre um evento que minha mãe sempre repetia com detalhes. "Sua avó dizia que, certa vez, em uma noite tranquila, uma porta pesada, trancada com uma trava de madeira grossa, se abriu com uma força violenta. Não havia ninguém por perto. Parecia que algo, ou alguém, exercia tanta pressão que a madeira não conseguiu resistir. Foi como se a fazenda quisesse lembrar a todos dos horrores que presenciou."
A cada vez que ouvia essa história, eu ficava arrepiada, mas também fascinada. Havia algo poderoso em como as vozes do passado continuavam ecoando, como uma lembrança viva de sofrimento e resistência. E assim, o relato de vovó Marta continuava a viver, passando de geração em geração, como um lembrete das lições dolorosas da história.
Lydia Dircsheneider

